Uma Vacina para a Pandemia “Fome-21”?

Uma Vacina para a Pandemia “Fome-21”?
António Souto • Assessor e Senior Adviser da Gapi-SI & Presidente da AMOMIF - Associação Moçambicana de Operadores de Microfinanças

É URGENTE INTERVIR contra o alastramento de uma pandemia que vai agravar e suplantar a do Covid-19. Essa poderá vir a ser denominada pandemia “Fome-21”.

As raizes dessa pandemia estão a crescer por todo o continente africano. Moçambique é um dos países de mais alto risco e vulnerabilidade a esse fenómeno. No início de 2020, estimava-se que, por todo o continente africano, 257 milhões de pessoas viviam com fome, ou seja, 20% da população. Em Moçambique, o PMA estimava que “1,7 milhões de pessoas estavam nas últimas três fases de insegurança alimentar; cerca de 1,4 milhões, em situação de crise; e 265 mil, em emergência”.


O Índice de Desenvolvimento Humano de 2019 coloca Mo-çambique na posição 180 entre os 189 países avaliados. O Covid-19 vai certamente agravar estas estimativas.
O Banco Africano de Desenvolvimento estima e adverte que, por toda a África, e por efeito dos impactos económi-cos e sociais do Covid-19, se juntem a partir de 2020 mais 49 milhões de pessoas ao “exército de pobres” (com um rendi-mento inferior a 1,90 dólares por dia).


Cerca de 49% das crianças moçambicanas estão subnutri-das. Os fenómenos de instabilidade em Cabo Delgado e os efeitos dos ciclones Idai e Keneth agravam esta tragédia que se abate sobre as futuras gerações. Isto terá um enor-me impacto negativo no futuro desenvolvimento do capital humano do país.
Ao avaliar esta informação surge naturalmente a per-gunta: o que fazer para reverter este cenário? O mundo desenvolvido está a investir fortunas na busca de uma va-cina para o Covid-19. Nós temos de investir numa vacina contra uma outra pandemia: a “Fome-21”.


Noutras ocasiões já se mencionou que esta situação é em grande medida o resultado de políticas económicas que temos implementado ao longo das últimas décadas. O debate sobre a reversão dessas políticas é necessário e urgente, mas não é este o espaço para o fazer. Concentremo-nos aqui em acções imediatas e ao nosso alcance.


Uma das várias intervenções possíveis, e no âmbito das políticas de fomento do agro-negócio, consiste em intervir já para que todo o excedente produzido pelos cerca de três milhões de agricultores familiares, presentemente em fase de colheita, não fique sem comprador ou seja arrematado pelos países vizinhos. Foi nesse sentido que se constituiu um Fundo de Comercialização Agrícola gerido pelo Instituto de Cereais de Moçambique (ICM). Esse instrumento permite fazer chegar cash às famílias dos camponeses, estimular a capacidade empreendedora de milhares de pequenos comerciantes rurais e dinamizar a economia local. Para se conseguir isto não é preciso mais estudos e criação de departamentos estatais. Basta reforçar a capacidade do ICM e desse instrumento.


Outra medida urgente é um apoio efectivo aos municípios para gerirem melhor a formalização do sector informal, integrando multidões de vendedores que se aglomeram em torno dos centros urbanos numa luta diária pela sobrevivência. Intervenções urgentes para que a estes micro-empresários sejam facilitadas o acesso a serviços financeiros adequados, melhoria das infra-estruturas sanitárias e de maneio de produtos alimentares nos mercados, entre outras, podem ter um impacto atenuante no que está por vir. Estas e outras medidas urgentes e possíveis são de importância vital para o futuro e estabilidade do País, que vai viver situações de alto risco, pelo menos até ao final de 2021. Estejamos conscientes que a “mão carinho-sa” de doadores disponibilizando apoios diversos, incluindo em alimentos, está a sofrer de paralisia e artrites de natu-reza política e económica. As suas economias e sociedades estão a atravessar uma crise que limita a adesão a programas além-fronteiras.

Estejamos conscientes que a “mão carinhosa” de doadores disponibilizando apoios diversos, incluindo em alimentos, está a sofrer de paralisia e artrites de natureza política e económica

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